183.

(tardes sem fim.)

182.

- O que fazes quando largas as amarras e és já só  um papel ao vento? Quando desistir é a única palavra que cabe na tua boca?
- Respiras, dizes que vais morrer, pegas nos chinelos e vais buscar o chá que ferve ao lume.

181.

Dizes que não cuido de mim, não sabendo as noites que passo com o coração ao frio a tentar atenuar o sangue pisado das pancadas dos teus punhos, da tua alma, do teu ser. Soubesses tu o amor que é preciso para eu não quebrar ao vento. Soubesses tu a força que faço para cuidar do que escapou às tuas garras afiadas.

180.

São braços onde incidentalmente pertenço. Que faço eu contigo?

179.

Podem-me falar as mais ternas palavras vezes sem conta que eu retenho os pormenores . Podes percorrer mundos com sílabas que escorrem quentes no corpo mas a memória mais doce que tenho de ti será sempre a da tua voz trémula, receosa de fazer a pergunta de todos os dias, porque nunca ouviste realmente a resposta: 
".... queres açúcar no café?"

178.

"Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi. 

Se eu fosse cego amava toda a gente."

Almada Negreiros, «Canção da Saudade»